MARTHICORA VRYKOLAKA - UOL Blog
 "Ah, pai querido, barba branca, velho e solitário professor de coragem..." A.Guinsberg

 Máquina Alguma de Poupar Trabalho

"Máquina alguma de poupar trabalho
Eu fiz, nada inventei,
Nem sou capaz de deixar para trás
Nenhum risco donativo
Para fundar hospital ou biblioteca,
Reminiscência alguma
De um ato de bravura pela América,
Nenhum sucesso literário ou intelectual,
Nem mesmo um livro bom para as estantes
- apenas uns poucos cantos
vibrando no ar eu deixo
aos camaradas e amantes."

Walt Whitman

 "What good is sitting, alone in your room?
But come, hear the music play!
Life is a cabaret, old chum!
Come to the cabaret!
Put down your knitting, your book and your broom
It is time for a holiday
Life is a cabaret, old chum!
Come to the cabaret!
Come taste the wine
Come hear the band
Come blow that horn
Start celebrating
Right this way your tables waiting
What goods permmiting some prophet of doom?
To wipe every smile away
Life is a cabaret , old chum!
So come to the cabaret!
I used to have this girlfriend known as Elsie
With whom I shared for sordid rooms in Chelsea
She wasnt what you call a blushing flower
As a matter of fact she rented by the hours
The day she died the neighbours
came to snicker her
Well, that is what comes from
too much pills and liquor
But when I saw her laid down like a queen
She was the happiest corpes Id ever seen
I think of Elsie till this very day
I remember how shed turned to me and say
What good is sitting all alone in your room?
Come hear the music play
Life is a cabaret, old chum!
Come to the cabaret!
And as for me
And as for me
I made my mind up back in Chelsea
When I go I am going like Elsie
Star by admitting
From cradle to doom
It isnt that long a stay
Life is a cabaret, old chum!
Its only a cabaret, old chum!
And I love a cabaret!"

Louis Armstrong - Cabaret

Meu queridinho.

"...

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.

Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,

Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.

Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,

Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,

Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,

A direção constantemente abandonada do nosso destino,

A nossa incerteza pagã sem alegria,

A nossa fraqueza cristã sem fé,

O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,

A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,

A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver

De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.

Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,

Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,

Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,

Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,

Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...

Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,

Tu que não existes, que és só a ausência da luz,

Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida,

Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,

Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,

Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,

E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...

'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,

Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,

Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,

Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...

Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,

Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,

Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma idéia abstrata,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,

E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,

Porque ser inferior é diferente de ser superior,

E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.

Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,

E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,

E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,

E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.

Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,

Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,

(No mesmo abraço comovido)

O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,

O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,

E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,

O ladrão de estradas, o salteador dos mares,

O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —

Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,

Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,

A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos

E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.

Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,

Vivi dentro de todos os crimes

(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,

Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,

E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me, entreguei-rne,

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,

E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,

Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,

Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares

Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.

Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,

E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).

Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,

Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)

Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,

Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,

Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,

A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,

Os seus half-holidays inesperados...

Mary, eu sou infeliz...

Freddie, eu sou infeliz...

Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,

Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fisésseis,

Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —

..."

Álvaro de Campos

Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos
no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos




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