MARTHICORA VRYKOLAKA - UOL Blog

         ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?     Ana Cristina César

“Busca um porto longe uma nau desconhecida

E esse é todo o sentido da minha vida”.

“Um cansaço feliz, uma tristeza informe

O meu espírito intranquilamente dorme.

Combati, fui o gládio e o braço e a intenção

E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...

Meu gládio está caído aos meus pés...um topor

Impregna de cansaço a minha própria dor”...

Fernando Pessoa in : Inéditas

            A convenção social mais curiosa desta grande época em que vivemos é a de que opiniões religiosas devem ser respeitadas. Os efeitos desta convenção devem ser evidentes para todos, mas os dois maiores são: a) jogar um véu de santidade sobre idéias que violam qualquer decência intelectual; b) tornar todo teólogo um libertino com imunidades. O resultado disto é a espantosa lerdeza com que as idéias realmente sólidas circulam pelo mundo. No minuto em que uma dessas idéias põe a cabeça para fora, é inevitável que algum teólogo analfabeto cairá sobre ela, tentando destruí-la. A maneira mais eficiente de defende-la, naturalmente, seria cair sobre o teólogo com uma clava, porque a única defesa que funciona, na polêmica ou na guerra, é uma ofensiva vigorosa. Mais isso seria considerado falta de modos pelas convenções, assim os teólogos continuam alegremente o seu assalto à inteligência sem muita resistência, retardando desagradavelmente o conhecimento.

         Não há, na realidade nada sobre opiniões religiosas que as autorize a respeito de quaisquer outras opiniões. Ao contrário, elas tendem a ser ostensivamente cretinas. Se duvida, peça a qualquer devoto de suas relações para pôr por escrito aquilo em que ele realmente acredita, e veja o que sairá: “Eu, José da Silva, sob juramento, acredito que, ao morrer, me tornarei um vertebrado sem substância, desprovido de peso, altura ou massa, mas conservando todos os poderes intelectuais e sensações corpóreas de um mamífero comum; e que pelo crime e pecado de ter beijado minha cunhada as escondidas, com má intenção, serei cozido em ácido sulfúrico por um bilhão de anos”. Outro exemplo: “Eu, Maria da Silva, carregando o medo do inferno, afirmo e declaro solenemente que foi uma atitude certa, justa, legal e decente por parte de Deus, ao ver algumas criancinhas do santuário rindo da careca da Elizeu, mandar vir uma ursa da floresta e instrui-la, incita-la, induzi-la e comanda-la para estraçalhar 42 delas”. Ou: “Eu, d. Fulano de Tal, bispo da paróquia de...declaro pela minha honra como homem e como religioso acreditar que Jonas engoliu a baleia”, ou vice – versa, se for o caso.

         Não, não há nada ostensivamente digno a respeito de idéias religiosas. Só conduzem a uma espécie curiosamente pueril e tediosa de asnices. Na melhor das hipóteses, são compiladas dos metafísicos, ou seja, de homens que devotam suas vidas a provar que dois vezes dois não são sempre ou necessariamente quatro. Na pior das hipóteses cheiram a espiritualismo ou cartomancia. Nem há qualquer virtude visível nos homens que as comercializam profissionalmente. Poucos teólogos sabem alguma coisa que valha a pena, mesmo sobre teologia e poucos deles são honestos. Pode-se perdoar um stalinista ou um coletor de impostos na suposição de que há algum problema em suas glândulas endócrinas, e receitar-lhe um inverno no sul da França para cura-lo. Mas o teólogo médio é um sujeito corado, robusto e bem alimentado, sem nenhuma desculpa discernível em patologia. Ele dissemina a sua cantilena, nÃo inocentemente, como um filósofo, mas maliciosamente, como um político. Num mundo bem organizado, ele estaria na enxada. Mas, no mundo em que vivemos, temos de ouvir o que ele diz, não apenas educada e reverentemente, mas babando de boca aberta”.

 

H.L.Mencklen in: Evening Sun de Baltimore, 9 de dezembro de 1929.

“Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido.Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.

(...)

“Tenho elementos espirituais de boêmio, desses que deixam a vida ir como uma coisa que escapa das mãos e a tal hora em que  o gesto de a obter morre na mera idéia de faze-lo. Mas não tive a compreensão exterior do espírito boêmio - o descuidado fácil das emoções imediatas e abandonadas. Nunca fui senão um boêmio isolado, o que é um absurdo; ou boêmio místico, o que é uma coisa impossível.”

Bernardo Soares in: O Livro do Desassossego

"É noite. A lua ardente e terna,

Verte na escuridão sombria

A sua imensa, a sua eterna melancolia"...

Manuel Bandeira - O Inútil Luar




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