"O abatedouro é fórmula crua da sociedade em que vivemos.Uns nascem para reses, outros para verdugos.Uns jantam, outros são jantados.Há criaturas lôbregas, vestidas de trapos, e criaturas esplêndidas, cobertas de ouro e veludo, radiando ao sol.No cofre do banqueiro dormem pobrezas metalizadas.Há homens que ceiam, numa noite, um bairro fúnebre de mendigos.(...)Vivem quadrupedes em estrebarias de mármore e agonizam párias em alfurjas infectas roídos de vermes.A latrina de Vanderbilt custou aldeolas de miseráveis.E visto os palácios devorarem pocilgas, todo boulevard grandioso reclama um quartel, um cárcere, uma forca.O deus milhão não digere sem a guilhotina de sentinela.Os homens repartem o globo, como os abutres o carneiro.Homens que tem impérios e homens que não tem lar."
Guerra Junqueiro