MARTHICORA VRYKOLAKA


15/11/2012


"Se eu tirar com urna pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...

Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.

Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?"


Fernando Pessoa operando em Modo Fofo



Escrito por Marthicora Vrykolaka às 02h22
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05/07/2012


"Nos arredores do "Posto Agrícola de Cultura Experimental de Plantas Tropicais", que, como se sabe, fica no município Contra-Almirante Doutor Frederico Antônio da Mota Batista, limítrofe do nosso, havia um habitante singular.

Conheciam-no no lugar, que, antes do batismo burocrático, tivera o nome doce e espontâneo de Inhangá, por "feiticeiro"; o mesmo, certa vez a ativa polícia local, em falta do que fazer, chamou-o a explicações. Não julguem que fosse negro. Parecia até branco e não fazia feitiços. Contudo, todo o povo das redondezas teimava em chamá-lo de "feiticeiro".

É bem possível que essa alcunha tivesse tido origem no mistério de sua chegada e na extravagância de sua maneira de viver.

Fora mítico o seu desembarque. Um dia apareceu numa das praias do município e ficou, tal e qual Manco Capac, no Peru, menos a missão civilizadora do pai dos incas. Comprou, por algumas centenas de mil-réis, um pequeno sítio com uma miserável choça, coberta de sapé, paredes a sopapo; e tratou de cultivar-lhe as terras, vivendo taciturno e sem relações quase.

A meia encosta da colina, o seu casebre crescia como um cômoro de cupins; ao redor, os cajueiros, as bananeiras e as laranjeiras afagavam-no com amor; e cá embaixo, no sopé do morrote, em torno do poço de água salobre, as couves reverdesciam nos canteiros, aos seus cuidados incessantes e tenazes.

Era moço, não muito. Tinha por aí uns trinta e poucos anos; e um olhar doce e triste, errante e triste e duro, se fitava qualquer cousa.

Toda a manhã viam-no descer à rega das couves; e, pelo dia em fora, roçava, plantava e rachava lenha. Se lhe falavam, dizia:

— "Seu" Ernesto tem visto como a seca anda "brava".

— É verdade.

— Neste mês "todo" não temos chuva.

— Não acho... Abril, águas mil.

Se lhe interrogavam sobre o passado, calava-se; ninguém se atrevia a insistir e ele continuava na sua faina hortícola, à margem da estrada.

À tarde, voltava a regar as couves; e, se era verão, quando as tardes são longas, ainda era visto depois, sentado à porta de sua choupana. A sua biblioteca tinha só cinco obras: a Bíblia, o Dom Quixote, a Divina Comédia, o Robinson e o Pensées, de Pascal. O seu primeiro ano ali devia ter sido de torturas.

A desconfiança geral, as risotas, os ditérios, as indiretas certamente teriam-no feito sofrer muito, tanto mais que já devia ter chegado sofrendo muito profundamente, por certo de amor, pois todo o sofrimento vem dele.

Se se é coxo e parece que se sofre com o aleijão, não é bem este que nos provoca a dor moral: é a certeza de que ele não nos deixa amar plenamente...

Cochichavam que matara, que roubara, que falsificara; mas a palavra do delegado do lugar, que indagara dos seus antecedentes, levou a todos confiança no moço, sem que perdesse a alcunha e a suspeita de feiticeiro. Não era um malfeitor; mas entendia de mandingas. A sua bondade natural para tudo e para todos acabou desarmando a população. Continuou, porém, a ser feiticeiro, mas feiticeiro bom.

Um dia Sinhá Chica animou-se a consultá-lo:

— "Seu" Ernesto: viraram a cabeça de meu filho... Deu "pa bebê"... "Tá arrelaxando"...

— Minha senhora, que hei de eu fazer?

— O "sinhô" pode, sim! "Conversa cum" santo...

O solitário, encontrando-se por acaso, naquele mesmo dia, com o filho da pobre rapariga, disse-lhe docemente estas simples palavras:

— Não beba, rapaz. E feio, estraga—não beba!

E o rapaz pensou que era o Mistério quem lhe falava e não bebeu mais. Foi um milagre que mais repercutiu com o que contou o Teófilo Candeeiro.

Este incorrigível bebaço, a quem atribuíam a invenção do tratamento das sezões, pelo parati, dias depois, em um cavaco de venda, narrou que vira, uma tardinha, aí quase pela boca da noite, voar do telhado da casa do "homem" um pássaro branco, grande, maior do que um pato; e, por baixo do seu vôo rasteiro, as árvores todas se abaixavam, como se quisessem beijar a terra.

Com essas e outras, o solitário de Inhangá ficou sendo como um príncipe encantado, um gênio bom, a quem não se devia fazer mal.

Houve mesmo quem o supusesse um Cristo, um Messias. Era a opinião do Manuel Bitu, o taverneiro, um antigo sacristão, que dava a Deus e a César o que era de um e o que era de outro; mas o escriturário do posto, "Seu" Almada, contrariava-o, dizendo que se o primeiro Cristo não existiu, então um segundo!...

O escriturário era um sábio, e sábio ignorado, que escrevia em ortografia pretensiosa os pálidos ofícios, remetendo mudas de laranjeiras e abacateiros para o Rio.

A opinião do escriturário era de exegeta, mas a do médico era de psiquiatra.

Esse "anelado" ainda hoje é um enfezadinho, muito lido em livros grossos e conhecedor de uma quantidade de nomes de sábios; e diagnosticou: um puro louco.

Esse "anelado" ainda hoje é uma esperança de ciência...

O "feiticeiro", porém, continuava a viver no seu rancho sobranceiro a todos eles. Opunha às opiniões autorizadas do doutor e do escriturário, o seu desdém soberano de miserável independente; e ao estulto julgamento do bondoso Mané Bitu, a doce compaixão de sua alma terna e afeiçoada...

De manhã e à tarde, regava as suas couves; pelo dia em fora, plantava, colhia, fazia e rachava lenha, que vendia aos feixes, ao Mané Bitu, para poder comprar as utilidades de que necessitasse. Assim, passou ele cinco anos quase só naquele município de Inhangá, hoje burocraticamente chamado - "Contra-Almirante Doutor Frederico Antônio da Mota Batista".

Um belo dia foi visitar o posto o Deputado Braga, um elegante senhor, bem-posto, polido e cético.

O diretor não estava, mas o doutor Chupadinho, o sábio escriturário Almada e o vendeiro Bitu, representando o "capital" da localidade, receberam o parlamentar com todas as honras e não sabiam como agradá-lo.

Mostraram-lhe os recantos mais agradáveis e pinturescos, as praias longas e brancas e também as estranguladas entre morros sobranceiros ao mar; os horizontes fugidios e cismadores do alto das colinas; as plantações de batatas-doces; a ceva dos porcos... Por fim, ao deputado que já se ia fatigando com aqueles dias, a passar tão cheio de assessores, o doutor Chupadinho convidou:

— Vamos ver, doutor, um degenerado que passa por santo ou feiticeiro aqui. E um dementado que, se a lei fosse lei, já de há muito estaria aos cuidados da ciência, em algum manicômio.

E o escriturário acrescentou:

— Um maníaco religioso, um raro exemplar daquela espécie de gente com que as outras idades fabricavam os seus santos.

E o Mané Bitu:

— É um rapaz honesto... Bom moço - é o que posso dizer dele.

O deputado, sempre cético e complacente, concordou em acompanhá-los à morada do feiticeiro. Foi sem curiosidade, antes indiferente, com uma ponta de tristeza no olhar.

O "feiticeiro" trabalhava na horta, que ficava ao redor do poço, na várzea, à beira da estrada.

O deputado olhou-o e o solitário, ao tropel de gente, ergueu o busto que estava inclinado sobre a enxada, voltou-se e fitou os quatro. Encarou mais firmemente o desconhecido e parecia procurar reminiscências. O legislador fitou-o também um instante e, antes que pudesse o "feiticeiro" dizer qualquer cousa, correu até ele e abraçou-o muito e demoradamente.

— És tu, Ernesto?

— És tu, Braga?

Entraram. Chupadinho, Almada e Bitu ficaram à parte e os dois conversaram particularmente.

Quando saíram, Almada perguntou:

— O doutor conhecia-o?

— Muito. Foi meu amigo e colega.

— É formado? indagou o doutor Chupadinho.

— É.

— Logo vi, disse o médico. Os seus modos, os seus ares, a maneira com que se porta fizeram-me crer isso; o povo, porém...

— Eu também, observou Almada, sempre tive essa opinião íntima; mas essa gente por aí leva a dizer...

— Cá para mim, disse Bitu, sempre o tive por honesto. Paga sempre as suas contas.

E os quatro voltaram em silêncio para a sede do "Posto Agrícola de Cultura Experimental de Plantas Tropicais"."


Lima Barreto      

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 20h53
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11/05/2011


 

“A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo mesma: “Esta criança me agrada.”

E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sobre ti com um suave carinho de mãe, e depôs as suas cores em tuas faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces extraordinariamente pálidas. Foi contemplando essa visitante que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste, para sempre, com o desejo de chorar.

Entretanto, na expansão da sua alegria, a lua invadia todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda esta luz viva pensava e dizia:

- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.

Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde
Não estiveres; o amante que não conheceres; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desmaiam sobre os pianos e gemem que nem as mulheres, com
Uma doce voz enrouquecida!

“E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos verdes a quem também estreitei a garganta em minhas
Carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso, tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da sua loucura.

E é por isso, maldita e querida criança mimada, que estou agora prosternado a teus pés, buscando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha, da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos."

 

Charles Baudelaire


 

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 03h02
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15/12/2010


Escrito por Marthicora Vrykolaka às 01h45
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03/12/2010


 

"Sabes tu de um poeta enorme,

Que andar não usa

No chão, cuja estranha musa,

Que nunca dorme,


Calça o pé melindroso e leve,

Como uma pluma,

De fôlha e flor, de Sol e neve,

Cristal e espuma;


E mergulha, como Leandro,

A forma rara

No Pó, no Sena, em Guanabara,

E no Escamandro;


Ouve a Tupã, escuta a Momo,

Sem controvérsia,

E tanto adora o estudo, como

Adora a inércia;


Ora do fuste, ora da ogiva

Sair parece;

Ora o Deus do ocidente esquece

Pelo deus Siva;


Gosta do estrépido infinito,

Gosta das longas

Solidões em que se ouve o grito

Das arapongas.


E se ama o rápido besouro,

Que zumbe, zumbe,

E a mariposa que sucumbe

Na flama de ouro.


Vaga-lumes e borboletas

Da cor da chama,

Roxas, brancas, rajadas, pretas,

Não menos ama.


Os hipopótamos tranquilos,

E os elefantes,

E mais os búfalos nadantes,

E os crocodilos,


Como as girafas e as panteras,

Onças, condores,

Tôda a casta de bestas feras

E voadores.


Se não sabes quem êle seja,

Trepa de um salto

Azul acima, onde mais alto

A águia negreja;

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 18h24
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Onde morre o clamor iníquo

Dos violentos;

Onde não chega o riso oblíquo

Dos fraudulentos.

Então olha, de cima pôsto,

Para o oceano;

Verás num longo rosto humano

Teu mesmo rosto;

 

E hás de rir, não do riso antigo,

Potente e largo,

Riso de eterno moço amigo;

Mas de outro amargo,

 

Como o riso de um deus enfermo,

Que se aborrece

Da divindade, e que apetece

Também um têrmo...

 

Os amigos dêle apreciarão os sentidos dêsses versos. O público, em geral, nada tem com um homem que passou pela terra sem os convidar para coisa nenhuma, um forte engenho que apenas soube amar a arte, como tantos cristãos obscuros amaram a Igreja, e amar também aos seus amigos, porque era meigo, generoso e bom.” (Nota do Autor).

 

Machado de Assis - sobre seu amigo Artur de Oliveira, aproveitado aqui como homenagem ao meu amigo Samuel.

 

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 18h23
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30/11/2010


ELEGIAS DE HOLLYWOOD

I

O vilarejo de Hollywood foi

arquitetado de acordo com as

representações

Que aqui se fazem do céu.

Imaginou-se então que Deus,

Precisando de céu e inferno, em vez de

Projetar dois estabelecimentos,

Projetou um único – o céu. Este serve,

Para os despossuídos e malogrados,

De inferno.

 

II

Do mar se erguem torres de petróleo.

Nos desfiladeiros

Jazem os brancos esqueletos dos

garimpeiros de ouro. Seus filhos

Edificaram as fábricas de sonho de

Hollywood.

As quatro cidades

Estão impregnadas do cheiro de óleo

Dos filmes.

 

III

A cidade foi batizada em memória dos

anjos,

Que são encontrados por toda parte.

Recendem a óleo e usam presságios de

ouro

E, com círculos azuis em torno dos

olhos,

Durante toda manhã alimentam os

escrevinhadores em suas piscinas.

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 05h05
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IV

Sob a copa das pimenteiras

Os músicos fazem seu trottoir andando

de par em par

Com os escrevinhadores. Bach

Tem um quarteto de cordas no bolso;

Dante remexe

O traseiro descarnado.

 

V

Os anjos de Los Angeles

Estão cansados de sorrir. À noite,

Desesperados, compram atrás dos

mercados de frutas

Pequenos frascos

Com cheiro de sexo.

 

VI

Os caças da defesa aérea sobrevoam

As quatro cidades mantendo-se em

elevada altitude

A fim de que o fedor da cobiça e da

miséria

Não os empesteie lá em cima.

 

Bertolt Brecht

 Tradução - inédita para o português - de Tercio Redondo, retirada do jornal Traulito - número 2 - julho/agosto de 2010.

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 05h04
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27/09/2010


O PEIXE MORRE PELA BOCAsurpreso


Passando malTUMA MORRE PELO CUJóia


        Rindo a toa  Diabólico  Jóia  Rindo a toa  Diabólico  Jóia  Rindo a toa  Diabólico  Jóia

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 14h28
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07/09/2010


O mundo cria as pessoas amargas para rir de suas angústias

E as doces para rir de suas tragédias

Não envio flores

Penso em enviar bombas

Apodreço em solidariedade ao meio

O desespero é a asa de abutre onde me abrigo

Lamamedoestrondo

Talvez a guerra seja o verdadeiro habitat humano

Monstro cínico, boicotador das pequenas alegrias

 

 


Spadão  

 

             

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 04h06
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03/04/2010


Lista das Preferências de Orge


Alegrias, as não medidas
Peles, as não extorquidas.

Histórias, as ininteligíveis

Conselhos, os inexequíveis.

Solteiras, as jovens

Casadas, as que enganam os homens.

Orgasmos, os não síncronos

Ódios, os recíprocos.

Domicílios, os permanentes

Adeuses, os sub-ardentes.

Artes, as não rentáveis

Professores, os enterráveis.

Prazeres, os que exprimir se podem

Fins, os de segunda ordem.

Inimigos, os sensíveis

Amigos, os incorruptíveis.

Cores, o rubro

Meses, Outubro.

Elementos, o fogo

Deuses, o monstro.

Decadentes, os louvaminheiros

Mensagens, os mensageiros.

Vidas, as lúcidas

Mortes, as súbitas.


Bertold Brecht

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 22h41
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17/12/2009


Feminina

 


Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer potins - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...


Ah, que te esquecesses sempre das horas
Polindo as unhas -
A impaciente das morbidezas louras
Enquanto ao espelho te compunhas...


A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e enganos -
A dissoluta, a perigosa
A desvirgada aos sete anos...

O teu passado, sigilo morto,
Tu própria quasi o olvidaras -
Em névoa absorto
Tão espessamente o enredaras.

A vagas horas, no entretanto,
Certo sorriso te assomaria
Que em vez de encanto,
Medo faria.

E em teu pescoço
- Mel e alabastro -
Sombrio punhal deixara rastro
Num traço grosso.

A sonhadora arrependida
De que passados malefícios -
A mentirosa, a embebida
Em mil feitiços




Mário de Sá-Carneiro


Escrito por Marthicora Vrykolaka às 17h47
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25/09/2009


Os Olhos dos Pobres


Ah! você quer saber por que a odeio hoje... Sem dúvida
Lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim
Explicá-lo; pois você é, suponho, o mais belo exemplo de
Impermeabilidade feminina que se possa encontrar.
Havíamos passado juntos um longo dia, que me parecera
Curto. Tínhamos jurado um ao outro que todos os nossos
Pensamentos nos seriam comuns, e nossas duas almas,
Daquele dia em diante, não seriam mais do que uma só:
Sonho que, além de tudo, nada tem de original, a não ser
Que, sonhado por todos os homens, ainda não foi realizado
Por nenhum.
Ao anoitecer, um pouco fatigada, você desejou sentar-se
Diante de um café novo, na esquina de um novo bulevar que,
Ainda cheio de entulho, já ostentava gloriosamente os seus
Esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás
Mostrava ali todo o calor de uma estréia, e alumiava com
Todas as forças as paredes de uma brancura cegante, as
Toalhas rutilantes dos espelhos, os ouros dos astrágalos e das
Cornijas, os pajens de faces rechonchudas levados de rastos
Pelos cães atrelados, as damas rindo ao falcão encarapitado
Em seu punho, as ninfas e as deusas trazendo à cabeça frutas,
Pastéis e caças, as Hebes e os Ganimedes apresentando,
De braço estendido, a pequena ânfora de bavaroises ou o
Obelisco bicolor dos sorvetes mistos: toda a história e toda
A mitologia postas a serviço da gula.
Na calçada, diante de nós, víamos plantado um pobre
Homem dos seus quarenta anos, de ar fatigado, barba meio
Grisalha, que segurava por uma das mãos um menino e
Trazia no outro braço um pequenino ser ainda muito frágil,
Incapaz de caminhar. Servindo de ama, fazia os filhos,
Respirarem o ar da noite. Todos em trapos. Eram três fisionomias
Extraordinariamente sérias, e seis olhos que contemplavam
O novo café com admiração igual, mas diversamente
Colorida pela idade.
Os olhos do pai diziam: - "Como é belo! como é belo!
Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo foi transportado
Para estas paredes." Os olhos do menino: - "Como é belo!
Como é belo! Mas é uma casa onde só podem entrar as pessoas
Que não são como nós." Os olhos do menorzinho, esses,
De tão fascinados, revelavam apenas uma alegria estúpida e
Profunda.
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e
Abranda o coração. Em relação a mim, tinham razão as
Canções, naquela noite. Eu não só me sentia enternecido com
Essa família de olhos, senão também um pouco envergonhado
De nossos copos e nossas garrafas, maiores que a nossa sêde.
Voltava os meus olhares para os seus, querido amor, neles
Procurando ler o meu pensamento; mergulhava nos seus olhos
Tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes,
Habitados pelo capricho e inspirados pela lua, quando você me disse:
- Que gente insuportável aquela, com uns olhos
Escancarados como portas-cocheiras! Você não poderia pedir
Ao dono do café que os afastasse daqui?
Tanto é difícil entenderem-se as criaturas, meu anjo
querido, e tão incomunicável é o pensamento, mesmo entre
Aqueles que se amam!


Charles Baudelaire 


Tradução de Aurélio Buarque de Holanda

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 17h53
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02/08/2009


Como você não esta fora da lista?


Como você não está fora da lista?

Os homens ligam e me perguntam isto.

Você é realmente Charles Bukowski
O escritor?

Sou escritor de vez em quando, eu digo,
Na maior parte do tempo eu não faço nada.

Escute, eles dizem, eu gosto de suas
Coisas – se importa se eu aparecer ai
Com uma dúzia de latinhas?

Você pode trazê-las, eu digo
Desde que você não entre...

Quando as mulheres ligam, eu digo,
Ó, sim, escrevo, sou escritor
Apenas não estou escrevendo nada neste exato momento.

Me sinto tola ligando para você,
Elas dizem, e fiquei surpresa
De achar você na lista telefônica.

Tenho meus motivos, eu digo,
A propósito, por que você não aparece
Pra tomar uma cerveja?

Você não se importaria?

E elas chegam
Mulheres lindas
Boas de corpo e mente e olho.

Frequentemente não há sexo
Mas estou acostumado
Ainda assim é bom
Bom demais olhar para elas...
E em alguns raros momentos
Tenho uma maré inesperada de sorte
Para variar.

Para um homem de 55 anos que não transou
Até os 23
E não muitas vezes mais ate os 50
Creio que deva continuar listado
Na Pacific Telephone
Até conseguir o mesmo número de mulheres
Que os homens normais conseguiram.

Claro, terei que continuar
Escrevendo poemas imortais
Mas a inspiração está lá.


Dirty Old Man

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 01h38
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09/07/2009


 

 

http://www.amigosearte.com.br/


Entrem lá...Jóia

Escrito por Marthicora Vrykolaka às 18h57
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Histórico